Venezuelanos conversam em códigos por medo de terem celulares revistados
Inspeção de telefones de civis aumentou desde que os EUA atacaram Caracas e Nicolás Maduro foi capturado.
As autoridades instalaram mais pontos de controle nas ruas da capital e em outras partes do país, alegando que são necessários para reforçar a segurança nacional em meio à tensão política.
Alguns são fixos, geralmente perto de zonas de segurança ou instituições públicas, mas outros são móveis.
Os policiais param motoristas, perguntam para onde estão indo, revistam os veículos e, muitas vezes, mexem em seus celulares.
Embora as buscas em telefones não sejam novidade, depoimentos coletados pela CNN mostram que essas medidas aumentaram desde o decreto de emergência do governo após o ataque dos EUA em 3 de janeiro.
O decreto permite que as autoridades adotem medidas extraordinárias, mas não detalha o alcance, os critérios ou se limita os direitos e liberdades dos cidadãos, como a proteção da privacidade nas comunicações.
Por outro lado, o artigo 48 da Constituição da Venezuela afirma explicitamente: “É garantido o sigilo e a inviolabilidade das comunicações privadas em todas as suas formas. Elas não podem ser violadas, exceto por ordem judicial, segundo as disposições legais, e preservando-se o sigilo de quaisquer assuntos privados não relacionados ao processo legal correspondente.”
Apesar disso, a CNN conversou com vários venezuelanos que tiveram seus celulares revistados nas últimas semanas.
Por causa disso, muitos falam em código, evitam mencionar líderes políticos, apagam constantemente conteúdo de seus celulares e se recusam a expressar opiniões em grupos de WhatsApp.
Venezuelanos tomam precauções ao sair nas ruas
Desde a captura de Maduro pelos Estados Unidos, o cotidiano dos venezuelanos comuns se tornou repleto de incertezas.
Não está claro quem está no comando do país. Enquanto o presidente americano, Donald Trump, afirma estar “governando” a Venezuela, a ex-vice de Maduro (agora presidente interina, Delcy Rodríguez) reagiu, dizendo no domingo (25) que já estava “farta” das ordens dos EUA.
Ainda assim, não há indícios de que ela planeje uma eleição que legitime seu governo. Enquanto isso, a economia permanece em crise e os preços dos produtos básicos flutuam diariamente.
As blitz de rotina na Venezuela
Mesmo antes da queda de Maduro, as blitzes de rotina podiam se tornar um pesadelo para os civis.
Foi o que aconteceu com um cozinheiro em abril do ano passado.
O cozinheiro, que pediu para não ser identificado por medo de represálias, contou que, ao sair de casa para o trabalho naquele dia, um agente do serviço de inteligência Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional) o obrigou a parar logo após uma ponte na zona oeste de Caracas. Não lhe pediram documentos nem sua carteira de identidade.
A primeira pergunta foi sobre sua profissão. "Chefe de cozinha", respondeu ele.
A segunda pergunta foi direto para a política. "Você é um guarimbero?", perguntaram, usando um termo cunhado pelo governo para se referir pejorativamente aos manifestantes antigoverno.
Ele respondeu que era cozinheiro e insistiu que trabalhava como chefe de cozinha.
O trabalhador chegou a dizer ao agente que havia se tornado pai recentemente e que só queria ir trabalhar e voltar logo para casa para ver sua filha recém-nascida.
Mas, em vez de o deixarem ir, disseram que iriam revistar seu carro e seu celular.
Depois que as autoridades pediram que ele desbloqueasse o celular, digitaram palavras-chave na busca do WhatsApp, como "guarimba" (protesto de rua) e nomes como Diosdado Cabello (ministro do Interior da Venezuela) e Nicolás Maduro.
O cozinheiro contou à CNN que vários amigos seus já haviam passado por situações semelhantes, então ele tinha o hábito de ler e apagar qualquer conteúdo político, embora guardasse em algum lugar da sua galeria de fotos uma foto com a líder da oposição, María Corina Machado.
Quando digitaram "Maduro" na busca do WhatsApp, só apareceram receitas com banana-da-terra ou tomates maduro. E na galeria de fotos, só encontraram fotos de pratos e da filha dele.
A busca minuciosa durou cerca de uma hora, "entre mensagens intimidatórias e as mesmas perguntas suspeitas", lembra ele.
Durante a inspeção do veículo, um dos policiais demonstrou interesse em um acessório de motocicleta que ele tinha na caminhonete.
"Fiquem com isso. Eu nem tenho mais moto", falou o cozinheiro, tentando encerrar a situação com um gesto. Imediatamente depois, deram-lhe sinal para ir embora.
Ao arrancar com o carro, olhou pelo retrovisor e viu outros veículos enfileirados, aguardando revista. Mesmo assim, com uma mistura de medo e resignação, seguiu em frente.
A experiência o afetou a tal ponto que agora evita completamente conversas políticas.
Hoje, ele conta que, se recebe uma mensagem sobre o assunto, pede para mudar de tema, apaga as mensagens e esvazia imediatamente o chat.
Evita sair sozinho, principalmente à noite, porque, segundo ele, o número de blitzes policiais aumentou.
Acredita também que ter tatuagens chama mais a atenção dos agentes. Afirma já ter sido revistado três vezes em menos de seis meses.
Tensão durante revista
Um jornalista passou por uma situação semelhante em dezembro.
Em plena luz do dia e depois de tomar um café com colegas, o jornalista, que prefere não ser identificado por medo de represálias, estava viajando pela rota do Country Club em direção a El Bosque, na zona leste de Caracas, quando se deparou com uma blitz policial que estava parando todos os carros que passavam pela área, contou ele.
Essa é a rota que o repórter costuma usar quando utiliza “vias verdes”, ou seja, caminhos alternativos para evitar o trânsito.
O procedimento começou com as solicitações de praxe: documentos, RG e carteira de habilitação.
Mas então, eles focaram a atenção na sua carteira, relata. Ele conta que, ao abri-la, um pequeno papel dobrado caiu, e imediatamente sentiu a atmosfera mudar.
Os policiais alegaram suspeitar que ele estivesse portando maconha, então decidiram fazer uma inspeção mais minuciosa.
A tensão aumentou. O policial pediu o celular dele e começou a examiná-lo, procurando também por palavras-chave em suas conversas, vestígios de uso de drogas ou qualquer coisa que pudesse incriminar alguém por algum delito.
O jornalista afirma que não tinha maconha nem qualquer outra droga no carro.
Felizmente, segundo ele, os policiais não identificaram sua profissão e, durante a busca, não usaram palavras politicamente carregadas que pudessem expor conversas com seus chefes, fontes ou colegas. Mas ele sentiu medo durante toda a busca, que durou quase uma hora, deixando-o extremamente nervoso e desesperado para sair da situação o mais rápido possível.
Ele soube que o episódio havia terminado quando ouviu a frase: “Bem, o que você quiser contribuir”. Entregou uma nota de 50 dólares que tinha na carteira antes de ir para casa.
O episódio ainda afeta suas decisões diárias. Ele saiu de vários grupos de WhatsApp e apaga conteúdo do celular com frequência.
Agora evita sair à noite e limita suas saídas mesmo durante o dia, saindo de casa apenas quando necessário.







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